Ceiça Macedo - Entrevista Transcrita - Tulio Guimarães
ENTREVISTA COM TULIO GUIMARÃES
CEIÇA - Túlio Bom dia! Bom dia! Primeiramente eu gostaria de agradecer pela sua ajuda de
compreensão para o meu trabalho que é da UnB. Eu gostaria de saber um pouco da sua história,
como começou a sua trajetória artística.
TULIO - No geral com as pessoas da terceira idade?
CEIÇA - Um pouco de você.
TULIO - Tá bom. Eu comecei a fazer teatro na universidade quando eu tinha 22 anos e depois eu
comecei a estudar teatro em Brasília, quando eu cheguei em 88.
CEIÇA - Você é de onde?
TULIO - Eu sou de Letícia. É uma cidadezinha que fica no Alto Amazonas colombiano. Mas eu sou
registrado no Brasil porque eu nasci. Meu avô era diplomata, minha mãe separou do meu pai, fui
para lá. Enfim, é uma história. Mas eu sou brasileiro, nascido em Letícia e vim para Brasília em 88. E
foi quando eu ingressei na Faculdade de Artes Dulcina, me formei, fiz duas pós-graduações lá, dou
aula lá desde 1994 e com a terceira idade. Meu encontro com a terceira idade se deu através da
Clara Luz, uma senhora que me procurou para fazer uma oficina lá no Dulcina, conjunto com jovens.
Eu já conhecia ela, já tinha feito teatro aqui em Brasília com alguns outros diretores, dentre eles o
Hugo Rodas, e ela fez a oficina e quando terminou ela me chamou para e perguntou para mim assim
você toparia dirigir um grupo de pessoas com mais de 55 anos? Porque a gente está querendo ir
para Portugal, para a cidade do Porto, para um festival da terceira idade e não queremos ir como
turistas, queremos ir com espetáculo de teatro. Eu falei: ué, deixa eu pensar. Aí fui para casa, pensei
um pouco, aí vim encontrá los. Inclusive foi aqui no Espaço Cultural Renato Russo que tudo começou
no ano de 2000. Lá na Sala Marco Antônio Guimarães e eu encontrei esse grupo de 20 pessoas. Eram
20 pessoas na época, todos da terceira idade. E assim, uma coisa que me impressionou foi ver a
questão da autoestima. Como era baixa autoestima, né?
Bom, então aí sim começamos aqui na 508, mas montei o primeiro espetáculo chamado Aniversário
do Espelho. Mas nós não fomos para Portugal porque não houve dinheiro para pagar as passagens
de todo mundo. Aí eu pensei bom, vai acabar e tal, fiz meu trabalho, mas não, eles queriam era fazer
teatro. Eles queriam sair da invisibilidade, eles queriam se ver. Eles queriam mostrar que eram
capazes de fazer alguma coisa com qualidade, com coragem. Aí eu adaptei os exercícios que eu
sempre usei com os meus alunos da faculdade para pessoas com essas características nessa faixa
etária e começamos a desenvolver.
Hoje estamos com 23 anos e o grupo, um dos grupos mais antigos de Brasília, em atividade
constante. Nem durante a pandemia a gente parou, a gente continuou se encontrando. Não
montamos espetáculo por razões óbvias. Mas quando acabou a pandemia, a gente tinha um
espetáculo pronto que a gente ensaiou virtualmente durante a pandemia. Essa foi a maior vitória,
porque, imagina com pessoas da terceira idade que já tem dificuldade, resistência com a tecnologia,
se mantiveram unidos em prol de algo que era muito maior, que era o prazer e a vontade de fazer
teatro, né? Esse grupo Viva a Vida já me levou para outros caminhos também.
Com o Sesc em Brasília, eu fui contratado, fiz, participei de uma licitação e fiquei seis anos, quatro
anos, seis anos, seis anos, eu acho. Não lembro de jeito total, seis anos ao total com o Sesc. Há um
tempo atrás, já faz tempo. Isso foi quando eu lhe conheci lá no Gama. Eu dei aula no Sesc do Gama,
Taguatinga, Plano Piloto e Ceilândia. Você foi em Ceilândia ou foi? Foi no Gama? E também foi uma
experiência maravilhosa. Porque levar isso para a periferia, para um outro grupo de pessoas que não
tem condições financeiras também. Muitos deles lá, inclusive, não sabiam ler. Então, para mim foi
um puta de um aprendizado. Foi um aprendizado maravilhoso, porque eu troquei com eles outra
realidade, outras pessoas com outro nível cultural e que me acrescentaram demais, me
acrescentaram demais. Fiquei apaixonado por todas essas turmas. É uma pena que esse projeto ele
não é ad infinito, como é o dinheiro público. Então a licitação acabou, o meu período veio e vieram
outras pessoas e nunca mais eu me inscrevi para fazer.
CEIÇA - Ao total, quantas peças?
TULIO - Com o grupo Viva Vida já foram 22 peças.
CEIÇA - E você só?
TULIO - Minhas na minha carreira profissional. Deixa aí, é um sem conta, não tem. Perdi a conta
assim. Mas eu sou muito mais diretor e professor do que ator. Eu atuo pouco. Mas agora estou com
um espetáculo em cartaz. A gente foi para o México, tô indo para Argentina em dezembro, em
janeiro, para o Chile, que é um espetáculo. Volver a Letícia, que inclusive ontem eu apresentei no
festival aqui em Brasília, chamado Verônica Moreno, foi uma maravilha. Quer dizer, como ator eu
estou voltando a atuar, mas agora, por incrível que pareça, esse ano que eu fiz 60. Quer dizer, eu
também já estou na faixa etária do Viva a Vida, né? O que é muito bacana. É assim estou na ativa
fazendo meu teatro, mas um eu considero o Viva a Vida, essa oportunidade de fazer teatro com
pessoas da terceira idade. O maior presente que o teatro já me deu.
CEIÇA - Como é dirigir pessoas da terceira idade?
TULIO - É maravilhoso. E ao mesmo tempo que é espantoso também porque você lida com uma
série de limitações naturais físicas que a pessoa tem, mas a gente supera com a potência de
vontade, né? Então, aqui nós viramos uma família. Um apoia o outro porque temos os mesmos
problemas, as mesmas preocupações. Um se preocupa com o outro, um gosta do outro. Sempre
estamos nos comunicando. Temos um grupo de WhatsApp, então virou uma família.
CEIÇA - Esse é o maior desafio...
TULIO - E aí é porque todo mundo tem. Aqui eu estabeleço regras. Não se fala em política, não se
fala em religião aqui dentro para evitar justamente esse tipo de confronto. Nós nos reunimos e
fazemos tudo aqui em nome de algo muito maior do que qualquer outra coisa, que é o amor ao
teatro, o amor à vida. Por isso que chama viva a vida, né? Um amor a isso. Clara Luz, que já fez a
passagem esse ano, foi a fundadora. Nós estamos fazendo esse espetáculo que se chama Solidão e
Solitude, em homenagem a ela, que fez a passagem esse ano com 97 anos. Uma pessoa muito para
cima. Não quis velório não. E chororô que não era o feitio dela. Foi cremada e nos deixou esse ano a
gente está homenageando a Clara com todo, com todo o nosso amor, né? Mas aqui é assim, vira
uma família e a gente consegue reconhecer os limites para poder ultrapassá los. Sem dor, sem sem
tristeza. E aqui no grupo, a gente não faz espetáculo de vovozinha, de vovozinha. A gente faz
espetáculo que fala sobre vida, sobre morte, sobre abandono, sobre solidão, sobre alegria, sobre a
alegria de viver. Principalmente o privilégio de estar vivo nessa idade. Porque o outro, a outra
alternativa, é muito ruim, né? É morrer.
CEIÇA - Nas apresentações que você já fez. O que você acha? Qual o sentimento que você sente?
TULIO - Diz. Além da satisfação enorme de estar fazendo o que eu gosto, que eu amo, que é teatro,
né? Eu me sinto um privilegiado de poder estar fazendo a diferença na vida dessas pessoas,
resgatando a autoestima, né? A família passa a vê-los, a enxergá-los, porque às vezes a família só vê,
trata o idoso como se fosse um móvel dentro de casa, né? É um estorvo. Querem se ver livres. E
aqui, quando a família vem assistir, às vezes obrigada se surpreende ao enxergar a sua pessoa
querida no palco, se abrindo em flor sob a luz de um spot brilhando. Então, assim, eu me sinto muito
feliz. Um privilégio para mim fazer a diferença na vida dessas pessoas. Fazer o bem para elas, porque
eu sei o quanto isso faz bem. Eu tenho um aluno aqui de 97 anos. Ele, claro, com a idade avançada,
ele já não lembra mais das coisas. Enfim, ele não reconhece às vezes as pessoas. Ele está em cena e
às vezes não lembra o que ele está fazendo. Mas eu mantenho porque eu sei, a filha dele me pede,
diz assim Túlio, se ele sair daí, ele morre, porque aqui ele é acolhido, aqui ele se sente útil, aqui ele
se sente amado, né? Então, no espetáculo, se acontecer dele, esquecer dele, não saber nem onde
ele está, eu entro em cena e vou lá e ajudo, sabe? No nosso grupo isso é permitido. Porque? Porque
quem vem ao teatro sabe que vai ver um monte de gente com idade mínima de 60, né? Então assim
é bonito de ver e eu estando por trás, eu sendo o autor disso. Para mim é uma alegria, uma alegria
muito grande.
CEIÇA - Você acha que aqui em Brasília tem campo de trabalho para a terceira idade?
TULIO - Olha, a terceira idade no mundo inteiro está crescendo cada vez mais. É uma população
economicamente ativa, né? Tem muita gente aí, muitos jovens que vivem da aposentadoria dos pais,
né? Oh... essa faixa etária da terceira idade sustenta famílias, né? Agora, com relação a emprego,
trabalho, existem algumas algumas oportunidades. Aqui, no nosso caso tem vários, várias
participantes e vários participantes que já fizeram cinema, já fizeram propaganda, já fizeram um
monte de coisa assim na área de teatro, já foram dirigidos por outros diretores. Então, assim, ao
acesso ao mercado de trabalho? Sim. Agora, a maioria das pessoas que procura aqui são pessoas
que já tem a sua vida resolvida, são aposentados. Ninguém aqui procura o Viva a Vida com a
intenção de te tornar um profissional, um profissional de teatro. Ninguém procura o Viva a Vida com
essa intenção. Procura o Viva a Vida usando o teatro como ferramenta de qualidade de vida, de
recuperação, de qualidade, de vida. Eles não vão querer seguir a carreira de ator, né? Nessa faixa
etária todo mundo já teve a sua carreira, já fez a sua vida. Muitos decidem tomar a frente da sua
vida depois que ficam viúvos, viúvas, né? Então que já criaram filhos, já criaram o neto, aí resolve se
dar de presente isso. Então o objetivo aqui é outro, não é nem se inserir no mercado de trabalho
propriamente dito, porque existe o etarismo. A gente sabe, né? Até os grandes atores que estão aí
na mídia ou nos palcos dos grandes eixos culturais, quando você atinge uma certa idade, os papéis
vão desaparecendo, você deixa de ser convidado, você vai começando a ser esquecido. Imagine você
começar uma carreira aos 70, 60, 70. É muito difícil. Não digo que é impossível. Acontece, né? Mas
assim é muito raro, mais raro do que um jovem. As oportunidades para os jovens são muito maiores,
porque a gente vive numa sociedade que endeusa a eterna juventude, né?
CEIÇA - Para finalizar, um conselho ou uma frase...
TULIO - O conselho que eu dou é ame para poder amar. Se a gente não se permitir ser amado, que
se a gente não se permitir a amar, você não consegue ser amado. Amor é recíproco, né? Amar,
amar, fazer o bem. Essa é a frase que eu sempre digo.
E o que mais você falou? Uma frase? O quê?
CEIÇA - Uma frase? Um conselho?
TULIO - Um conselho? É o conselho que eu dou para as pessoas. É que respeitem o ser humano. Que
busquem a paz, né? A paz, principalmente. Que sejam resilientes, que sejam empáticos. A empatia,
ah, o afeto! O afeto está faltando entre as pessoas. Falta para o mundo afeto, né? O amor fraterno
não é só o amor sexual que também é importante, mas dar valor ao amor fraterno. Amor, para mim,
é a maior razão de viver para o ser humano e pode ser exercido não só entre um casal como com
qualquer pessoa. O que nós fazemos aqui, nós fazemos por amor. Com amor, né?
CEIÇA - Túlio, eu agradeço as suas palavras e agradeço essa oportunidade de te conhecer mais
profundamente. E parabéns pelo seu trabalho. Eu me emocionei muito, eu achei muito gratificante
tudo o que você achou, carinho, a sua paciência que você teve com seus alunos, com certeza.
TULIO - E venha pra cá né minha querida, quando você se formar lá na UnB, que quiser trabalhar
com teatro, quiser fazer teatro, venha para o Viva! A Vida será muito bem-vinda sempre.
CEIÇA - com certeza. Obrigada.
TULIO – Nada, Ceiça. Abraço.
Comentários
Postar um comentário